Pessoal, muito obrigado a quem nos comunicou via email sobre a formatação do blog. Creio que o problema deva ser do Tumblr, já que não houve mudanças de nossa parte.
Há - e sempre existirá - algo em comum que satisfaça nossa capacidade de agrupar. Mas isso não é novo. Gestalt pura. E nós vamos amontoando. Seguidamente, segundo a segundo; cores, formas, tons, semitons. Passamos a chamar isso de normal e quando por acaso encontramos algo disforme do que vinhamos convencionando, de duas uma: descartamos ou viabilizamos aquilo como estrutura válida, ainda que diferente. É claro, e você já está sabendo até as minhas palavras de conclusão paragrafal, que descartar é realmente mais fácil. A peça fora do baralho nos direciona não para o monte de lixo, mas sim tendenciosamente para nossa mão que agora está com menos uma carta. Se eram cinco, agora são quatro. Menos uma e eu fico a três de bater.
Jobim, Hermeto, Sivuca são exemplos fáceis e modernos e corrompedores da suposta obrigatoriedade da dualidade acima. Sofisticados e populares. Inalcançáveis e acessíveis. Tudo o que encanta a classe média, mas que paradoxalmente, parece se transformar no mais imprudente dos estupradores. E tremer e tremer é só o que fazemos quando detestamos tudo aquilo que à primeira vista é lixo. É pobre. É Tecno-brega. E, no fundo, é fantástico. Tais quais os meninos de São Mateus (um dos pontos da nossa pala com o Fred) e tal qual o rótulo capixabial (um dos assuntos da nossa conversa com o Rogério Borges) Na nossa terceira edição do Pronto-Falei, entrevistamos duas figuras que se meteram no fogo cruzado. Fred Entringer e Rogério Borges. Um fala de trabalhar com a/na base. O outro escuta rádio. Só (tudo) isso.
Há criticas. Eu tenho e espero que você as formule ao assistir as entrevistas. Mas, nunca é demais lembrar a frase “It’s easy to attack and destroy an act of creation. It’s a lot more difficult to perform one”, de Chuck Palahniuk.
Abraços.
*algumas notas adicionadas às entrevistas podem ficar comprometidas caso a visualização dos vídeos não seja feita em HQ.
*Fred Entringer é músico e produtor cultural e DJ Durango nas horas vagas. Idealizador e diretor artístico do Omelete Marginal. Além disso, mantém o portal IU (Intervenções Urbanas)
*Participam dos vídeos: Aline Rangel, Davi Tápias e Yuri de Castro
*Conversão de mini-DV para m2v: Diego Freire
*Colaboração nas edições para as rádios Cidade, CBN e Poste: Giovani Wandekoken, Andreia Foeger e Camila Correa
*Edição final: Yuri de Castro
*Pronto-Falei (2009/2) é: Aline Rangel, Andreia Foeger, Camila Correa, Davi Tápias e Yuri de Castro
Pessoal, estamos concorrendo ao prêmio Omelete Marginal. Fui indicado na categoria Jornalista Cultural e tâmo na corrida com figuras como Helena Lopes, Vitor Lopes, Vitor Graize e Gus Magnago. Isso mesmo. Entra lá e nos prestigie com o seu voto! Aqui ó:
“Você me faria uma pergunta difícil se você tivesse me questionado sobre a cena do Espírito Santo”. Foi com essa que Nelson Motta se saiu em uma palestra quando alguém da platéia o indagou sobre a música de algum estado brasileiro. Mas é verdade. Se nem o próprio Espírito Santo tem conseguido se absorver, seria difícil pedir um diagnóstico de alguém que não tem vivido por essas bandas. Você talvez não vá entender o porquê de quatro moleques de Colatina, município do interior do Estado, terem sido destaque no The Guardian. Ou mesmo o porquê de esse tal de eletro-rock ter como um dos principais expoentes uma banda… capixaba que é o Zémaria e que, no mínimo, fez um dos discos mais legais (Zémaria, de 2002) e influenciadores da primeira década desse século pra música eletrônica brasileira e que abriu os olhos europeus para o jeito brasileiro de se fazer algo que não era samba, nem bossa-nova e muito menos algo tão datado como tem sido lançado pelos seus sucessores. E, quem sabe, a explicação para isso não vá ser assim tão interessante pra você que sequer se lembra que o Espírito Santo vive ao lado de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Mas partindo do princípio que a dúvida traz em si o início da ida ao esclarecimento, espere ser confundido ao ouvir o Solana. Se no mural da produtora do baterista Bento Abreu há uma foto da banda junto a Rodrigo Amarante e no mais recente álbum os vocais e as composições são divididas entre Juliano Gauche e o baixista Murilo Abreu, as comparações inevitáveis com o quarteto mais importante da última década no Brasil param exatamente aqui. Tente ouvir a voz de Gauche e não sentir, enfim, que há vocalistas de verdade no país. Que não só empunham guitarras e bonitas roupas, mas que sejam personagens de si mesmo e que, finalmente, cantem de verdade. De voz doce - e nem por isso meiga -, Gauche reflete, em sua voz e em seu discurso, tudo o que sua banda é no palco: precisa, técnica e contundente. Ver um show do Solana requer uma pequena dor de cabeça (eu avisei que você ia ficar confuso): o som é tão claro e chega tão límpido à audiência que você vai se culpar por não lembrar em que último show esteve e conseguiu compreender o que o vocalista estava cantando. No meu caso, a última vez foi no Humaitá Pra Peixe de 2007 (e mesmo assim em uma única apresentação da banda carioca Cabeza de Panda, composta pelos já tarimbados músicos da banda de Marcelo D2 - leia o texto sobre a apresentação aqui). De lá pra cá, foram inúmeros festivais independentes e a mesma sensação de que eu deveria ter comprado o encarte do álbum das bandas que eu veria só para poder entender algo.
Outra: apesar de ter várias faixas como candidatas ao posto de hits (“Os trilhos e os aviões” e “Semno” do primeiro álbum e “Para tua mulher quando te casares” e “A melodia Bonny Dundee” do último e ótimo Feliz Feliz, de 2008”), uma das músicas mais cantadas nos shows da banda é o blues de “O interior de um edifício debaixo do mar” e seus quase sete minutos onde Juliano Gauche desaba uma construída vida que ficou pra trás enquanto Murilo Abreu, Rodolfo Simor e Bento Abreu erguem e dão chão para a hipnótica letra e suas inversões (“Pra você isso tanto faz/Mas pra mim/a calma não convém/…/Pra você isso tanto faz/Mas pra minha calma não convém).
“Tente ouvir a voz de Gauche e não sentir, enfim, que há vocalistas de verdade no país. Que não só empunham guitarras e bonitas roupas, mas que sejam personagens de si mesmo e que, finalmente, cantem de verdade”
E por último, pero no menos fresco, você vai perceber tanto quando for a um show ou assistindo a entrevista exclusiva que Juliano Gauche e Bento Abreu concederam ao Pronto, Falei que a banda sabe que, inevitavelmente, o rock’n’roll necessita de personagens. Muito mais que isso, heróis. E se vindo de Ecoporanga, pequenino e seco município do interior do Espírito Santo, Gauche (juntamente com Dante Ixo) já chegou à Grande Vitória gritando “Congo é o caralho” - slogan que virou até camisa - é porque sabia disso. E assim como todo os heróis, você vai conferir que aliado a todos os grandes atos e feitos, Bento, Juliano, Murilo e Rodolfo caminham não só com a incerteza de fazer música no Brasil, mas também com a certeza de que não querem sair de Vitória para serem mais uma banda a ter clipe rolando esquecido nas madrugadas da MTV. Herói que se preza salva a mocinha. E, no Espírito Santo, temos uma mão cheia de heróis. E que estão dispostos a não encurtarem a trajetória a nomes como “luta” ou “causa”, em que você resolve em um episódio. Nesse momento, o Solana e uma trupe (que você vai ver desfilar aqui pelo Pronto-falei) querem salvar Vitória e deixá-la segura e presa em seus braços. E em slow-motion.